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A Tradição Cristã e o Conhecimento Gnóstico: O Exoterismo e o Esoterismo Expectante


         O presente estudo busca traçar uma diferenciação entre o exoterismo e o esoterismo na tradição Cristã, no sentido de resgatar a importância de seu valor doutrinário para o estudo iniciático e tradicional Expectante.
João Carlos de Freitas, Sacerdote Expectante do 2º Grau

As Três Religiões Monoteístas

         Em seu ensaio sobre as três maiores religiões monoteístas,  Carlos Del Tilo[1] defende a idéia que o judaísmo, o cristianismo e o islamismo têm uma raiz comum, pois se fundamentam em um texto revelado e, por isso mesmo, são denominadas as “religiões do Livro” que, para os judeus, é a Torá, para os cristãos, os Evangelhos e, para os muçulmanos, o Corão[2]. Trata-se do mesmo Livro, e as diferenças só existem em razão da exteriorização, adaptada à conjuntura de cada época.

As três professam a mesma mensagem: “Deus é Um”. São as religiões monoteístas que reconhecem Abraão como o Patriarca, pois foi o primeiro homem que chamou “meu Senhor” ao Deus universal, ao Deus de todas as nações. Ninguém havia falado assim antes, e Abraão invocou a “Seu Senhor”[3], que é IAVE: Escuta, Israel, IAVE nosso Deus, IAVE é único”[4].

         No mesmo sentido, Emmanuel d’Hooghvrost[5] explica o sentido profundo do monoteísmo com as seguintes palavras: “Isto não significa que Deus esteja só, senão que vem a ser como dissera: deixe aos demais povos venerar a um Deus inacessível no céu, ou prosternar-se ante um ídolo terrestre impotente. Teu Deus, o teu, Israel, é a união do Céu e da Terra. Por ele é um, porque está reunificado.”          Como afirma um ahâdith[6] mulçumano: “aquele que conhece a si mesmo, conhece ao seu Senhor”.

         A compreensão deste conceito é importante para que se faça uma distinção entre o exoterismo e esoterismo religioso, e sua relação direta com a gnose Expectante.

O Exoterismo e o Esoterismo Religioso

         O exoterismo de qualquer tradição se ocupa de seu aspecto exterior. Derivado do grego exo, “exterior”, representa um conjunto de textos, rituais, prescrições, imagens, símbolos e figuras a qual se ensina publicamente: trata-se da Igreja exterior.

         O esoterismo, ao contrário, se refere ao seu sentido interior e oculto. Deriva da raiz grega eso, “interior”, e representa a Igreja interior, reservada, também chamada de a Escola, como denominado na filosofia hermética.

         Assim, podemos dizer que o exoterismo tem de ser o reflexo exato do mistério esotérico, e não deve separar-se de seu conteúdo oculto, o qual se projeta ao exterior na forma de rituais, sacramentos, prescrições e símbolos.

         Se uma Igreja exterior perde a sua Escola interior, de onde se transmite o mistério oculto, isto é, o sentido real e palpável daquilo que se ensina, pouco a pouco se converte em uma religião humana - social, moral e farisaica -, fazendo com que os ritos e imagens se modifiquem, uma vez que se tornam “esquecidos” de sua referência precisa, iniciática e tradicional.

         A Igreja exterior, que perpetua a fé na revelação divina, deve permanecer fiel aos que, em seu seio, conhecem e possuem seu sentido oculto, transmitindo seu conhecimento (gnose). Assim, pois, uma necessita da outra.

Todos os profetas e apóstolos autênticos (conhecedores), têm “re-velado”, quer dizer, têm ensinado de forma velada, porque sua experiência não pode expressar-se senão utilizando-se imagens, rituais e letras.... Experimenta-se desde o interior, logo, se “re-vela” para fora.

         O esoterismo é o mistério[7], que se pode ser conhecido quando penetrado, através de uma iniciação, de uma manifestação divina. E este é precisamente o significado da palavra grega apocalipsis,”revelação”. De fora, a única coisa que se pode fazer é transmitir fielmente, e com exatidão, as “re-velações” dos mestres do esoterismo.

         Toda tradição procede necessariamente de uma “re-atualização”, quer dizer, da experimentação (vivência) do mistério da regeneração por parte do seu fundador. A partir de então se estabelece uma Escola capaz de ensinar e transmitir o mistério do conhecimento operativo: logo, se pode constituir uma Igreja exterior para comunicar a fé na revelação. Há, aqui, a necessária união do exoterismo com o esoterismo. Sem o entrosamento deste conjunto, se interrompe a transmissão do mistério, e a Igreja exterior se torna desprovida de um conteúdo vivo, e a tradição degenera em moralismo. No dizer de René Guénon[8], “para a maioria das pessoas, a religião é apenas um assunto de sentimento, sem qualquer alcance intelectual[9]. Confunde-se a religião com uma vaga religiosidade, reduzindo-a a uma moral. Diminui-se o mais possível o lugar da doutrina, que é entretanto o essencial, e da qual todo o restante nada mais deve ser, logicamente, que uma conseqüência.” Esta é a razão pela qual, praticamente, crentes e incrédulos comportam-se da mesma maneira.

         Por essa razão o Senhor Jesus, renovador do mistério da gnose, acusava aos que chamava de nomikoi: “os doutores da lei”, que interpretavam a Tora de maneira puramente exotérica, de haver perdido este conhecimento: “Aí de vós, doutores da lei, que haveis apoderado da chave da gnose: vós mesmos não haveis entrado e, aos que iam entrar, vós o haveis impedido”. (Lucas XI, 52)

A Gnose

         A palavra gnose (do grego gnosis), empregada pelo Senhor Jesus, significa “conhecimento experimental da divindade”. Deriva do verbo gignosco, “conhecer”, da mesma raiz de gignomai, “nascer”. Muito freqüentemente vê-se uma distinção entre o conhecimento de Deus e o amor de Deus, como se o conhecimento excluísse o amor. Conhecimento implica em renascimento: conhecer é “co-nascer” ou “re-generação”, palavra que encontramos na raiz primitiva gn, do grego geinomai, “nascer”, e genos, “raça”, “linhagem”. Assim, não existe verdadeira gnose sem reintegração, morte e ressurreição. A gnose ou o conhecimento, não se situa no plano da especulação intelectual, mas se constitui na consumação da realização, e se transmite em segredo, de mestre a discípulo. Tal é o mistério esotérico.       

A Tradição Iniciática Expectante

         Estas considerações destacam a importância que a Igreja Expectante assume nos dias atuais,  em face da natureza tradicional e iniciática de sua Egrégora, amparada por uma linhagem Patriarcal que soube empreender um caráter operativo à esse conhecimento profundo e oculto.

         O esoterismo Expectante deve manifestar-se com uma ênfase  cada vez mais expressiva, a partir do comprometimento de seus membros na busca do real significado de sua liturgia, e na preparação de sua regeneração interior.

         Nós, Expectantes, temos à nossa disposição a sabedoria viva de nosso terceiro Patriarca, e a herança iniciática daqueles que o antecederam. Cabe a nós a realização de um mergulho vivencial na matéria sagrada que permeia nossa Egrégora, não como um crédulo sentimentalista, mas sim, como um amante apaixonado que procura, em cada linha, desvendar os mistérios de sua amada, sendo por ela correspondido e tocado, desde o seu puro intelecto, até o mais profundo de sua alma.

         Que nossa Egrégora possa, assim, crescer e frutificar, alicerçada pela força devocional de seus membros, sob as bênçãos do Pai Divino – Bendito Seja -, do Espírito Santo e dos Mestres de nossa hierarquia.    



[1] Carlos del Tilo foi o pseudônimo adotado na Espanha por Charles van der Linden d’Hooghhvorst, grande escritor, alquimista, cabalista e hermetista contemporâneo. Este estudo foi extraído de sua obra “El Libro de Adán”, Arola Editors, 2002.

[2] A palavra Al significa “o” em árabe, de sorte que podemos dizer o Corão, ao invés de Alcorão, sendo o Alcorão uma redundância.

[3] Adonai, em hebraico.

[4] Deuteronômio, VI, 4.

[5] E. d’Hooghvrost, El Hilo de Penélope, Arolka ed., Tarragona, 2000, p. 162.

[6] A palavra hadith significa “relato” em árabe. Ahâdith é aquele que faz o relato sobre a vida do Profeta Maomé, desde o dia em que começou a sua predicação.

[7] Mistério, do grego mysterion, mystes “iniciação” , “iniciado”.

[8] “Os Símbolos da Ciência Sagrada”, Ed. Pensamento, 2002.

[9] A intelectualidade a que se refere Guénon alcança aqui o mesmo significado dado por Virgílio: a intelectualidade pura, “sem a  astúcia da razão.”  Trata-se do nous a que se refere Paimôndes em seu encontro com Hermes, relatado em Corpus Hermeticum.




 

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